Saudades suburbanas

Uma amiga minha sueca quando tem saudades de casa vai ao IKEA e no seu último aniversário tirou mesmo o dia para o passar dentro do armazém. Sempre me ri secretamente desse lugar comum, mas ela sentia-se bem dentro daquele ambiente escandinavo, o cheiro dos Köttbullar e rever a pátria no sofá Stockholm, comoda Malmö e as cores da sua bandeira em todas as prateleiras.

Até que dei por mim feliz por estar num hipermercado, como se estivesse em casa. Aquelas superfícies enormes, a garagem gigante, os carrinhos para encher até as montanhas de compras caírem, as prateleiras infindáveis e pelo menos 1 hora de compras! Juro-vos que me senti num ambiente conhecido e inexplicavelmente confortável. Em Viena, no centro não há hipermercados. Há supermercados. Eu vou ao supermercado a pé, de carrinho de compras e consigo despachar-me em 10 minutos. É tudo mais pequenino e não existem sequer o Carrefour ou o Auchan. Para matar saudades desses tenho que agarrar no carro e atravessar a fronteira para a Eslováquia ou Hungria. Quando os vi brilhar no horizonte a partir da autoestrada, confesso que sorri quase aliviada como se o mundo tivesse regressado ao normal.

Também quando estava em Lyon, lembro-me de um dia ter ido com a minha amiga Marta a um centro comercial e nos termos sentido em casa e apesar criticarmos esse tipo impessoal e assassino do comércio pequeno. Os brilhos, as montras das cadeias de lojas, as escadas rolantes entre sonhos de consumo. O nosso Portugal de hoje (hoje com mais sonhos que consumo, claro).

Mas não é só isso. No outro dia senti-me contente no bairro dos imigrantes de Meidling, porque me lembrava Moscavide com as suas predios desbotados atulhados de varandas e marquises de alumínio, as lojecas baratuchas de montras confusas. Depois senti-me feliz no distante 21 distrito onde as ruas de casas baixas, arvores e cafés no passeio me lembraram a Av. Da Igreja em Alvalade e até os turcos me lembravam os portugueses com a sua pouca altura morena e as barrigas e bigodes e aquele ar de quem anda a discutir a Bola e a tentar saber onde se comem bons caracóis. As turcas, se não andassem de lenço provavelmente lembrariam também as portuguesas…E por último Favoriten, o bairro suburbano dos anos 70-80 que me fez sentir nos Olivais…

São assim as minhas saudades suburbanas…mostra o que nos fica na memoria, sem que saibamos…

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