Familias e reflexões soltas

Esta  moda de se premiar o individualismo e o egoísmo e outros ismos desse género irrita-me. Tenho pensado bastante nisso, porque há contornos que me continuam a escapar para eu entender a minha própria vida pessoal. Sim eu sei que assistimos há décadas ao materialismo crescente da sociedade, aos movimentos de libertação das minorias, a perda de referências religiosas, o desmantelar das comunidades tradicionais, mas isto são coisas geralmente grandes. O que me irrita é mais o individualismo a nível das relações pessoais e familiares, ou seja, no seio daquilo que deveria ser mais íntimo e sagrado e pela sua natureza, comum dado envolver vários indivíduos aos mesmo tempo.

Comecei estas divagações quando um amigo disse-me que era bom o Rafael ir ter um irmão porque assim não ficava sozinho e eu vi-me então a responder-lhe que ter irmãos hoje em dia não significa nada. Na verdade, assim é para mim, como é o facto de que eu já não tenho família em Portugal. Tenho membros que foram da minha família dispersos e em confronto e com outras prioridades. Conheço várias pessoas em igual situação, com “famílias-de-origem” desmembradas (poucas em patchwork, o que representaria já o progresso acima do desmembramento) e felizes porque agora se sentem autónomos e independentes.

Os pais já não ajudam os filhos, os filhos os pais idosos, os avós já não estão para cuidar dos netos, os irmãos já não se falam, os tios são personagens distantes e os primos obsoletos. Todos estão muito ocupados e ninguém se mexe para entrelaçar os laços desatados,  antes pelo contrário. Fingem que nunca estiveram lá, como se a família fosse um conceito vazio e prejudicial e o nosso passado uma coisa a esquecer e a condenar.  

Ajudados pela técnica enviam sms de boas festas e parabéns só para dizer que mandaram alguma coisa e cultivam a ausência, o silêncio e o vazio.  Esse vazio, a tristeza e medos vão tentar compreende-lo às vezes  junto de psicólogos de escolas individualistas que não lhes oferecem uma solução, mas lhes apresentam a família como a fonte de todos os males (a culpa é sempre do pai, da mãe, do irmão, do cão, mas nunca do individuo e das opções que tomou) e vive-se nesse filme de personagens más, em vez de se viver na realidade e nas razões factuais, porque as coisas aconteceram como aconteceram e quais os lados positivos e quais as mais-valias de nos termos uns aos outros.

Em sociedades mais pobres, em que o apoio dos outros era fundamental para a sobrevivência do indivíduo, a união fazia a força. Claro que não digo que essa forma de viver não tenha trazido exageros e muitas vezes atabafava os indivíduos, mas é importante termos referências e grupos coesos a que possamos pertencer. Em tempos difíceis como estes, mais-valia que se trabalhasse para a união e para a entreajuda, em vez de trabalharmos para a rotura. Um dia será demasiado tarde, pois todos envelhecemos e todos passamos na vida por momentos menos bons e quem nos vai valer quando as agruras baterem à porta?

Enfim, considerações de mulher grávida provavelmente!

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