Apetrechos

Tratava-se portanto de mais uma tarde enfadonha  em frente ao computador, quando uma mensagem cintilou no écran: uma das minhas colegas convidava-me a mim e a umas tantas outras a irem ter com ela à sua sala, para nos mostrar o que tinha comprado no “Agent Provocateur”. Girls Talk, já!

Embora não me sentisse lá muito “girl”, lá fui. Afinal o “Agent” acabava de abrir recentemente na Tuchlauben, uma ruazinha  de Viena cheia de lojas exclusivas e de barzinhos idênticos para gente chic e bonita ou aspirante a tal. Quem se quer mostrar vai ali fazer compras inúteis ou marca uma mesa no Fabio’s, bem perto das largas janelas e deixa-se ser visto. Assim, lá fiquei à espera de ver o que saia dali.

 

Entre risinhos nervosos lá fomos todas até ao escritório da detentora dos novos produtos. “Lingerie, nova”, pensei eu. “Lingerie cara para quem não gasta dinheiro em creches e baby-sitters e sobretudo não tem filhos”, pensei de seguida! Bom, alheia ao meu pensamento, com artes de magia, a minha colega tirou do grande saco  de papel um pequeno estojo de onde saltaram duas espécies de berloques azuis atrelados a uma pequena ventosa brilhante. Nada de cetins, mousses suaves, lingerie sexy. Apenas dois berloques com ar de fantasia da casa de máscaras da Praça da Figueira. Enquanto eu tentava dissimular a minha decepção para tentar perceber o que  aquilo seria, a minha colega explicou “É para as mamas” e logo de seguida “Põe-se para decorar os mamilos. Enquanto eu tentava articular um “ahhhh!”, a minha colega pôs-se a exemplificar o que eu não queria que fosse exemplificado! As minhas colegas rejubilaram e eu fiquei sem saber o que dizer. Não chegando, tirou ainda duas caixinhas minúsculas com uma geleia colorida e anunciou triunfante, como se tivesse descoberto a última teoria sobre as nano-partículas, “e isto é para dar sabor”!

Depois de alguns segundos de pasmo, lá regressei à realidade. As minhas colegas estavam obviamente felicíssimas com a invenção e esfolheavam avidamente o catálogo que a outra tinha providencialmente trazido consigo. Era necessário que eu entrasse também na onda de alegria e eu sabia-o, mas não me ocorria nada para dizer! Fiquei ali estática a tentar encontrar as palavras apropriadas. Os únicos apetrechos para a mamas que tivera recentemente remontavam ao período de amamentação do meu filho. Assim, enquanto as minhas colegas devoravam o catálogo para verem quais as cores e os sabores possíveis dos apetrechos mamilares, as únicas coisas que me ocorriam eram discos de aleitamento, proteções de silicone para defender os ditos das chupadelas do bebé, ventosas para bombas do leite, cremes de azuleno para as gretas enfim…tudo muito técnico e nada, mas mesmo nada sexy!

Enquanto as minhas amigas pensavam nas novas potencialidade de sedução, eu estava ali a pensar o que me tinha escapado nos últimos anos. Senti-me um pouco como uma matrona terrível vestida de azul escuro e ar sisudo! Será que me tinha tornado numa delas? Será que com a maternidade deixamos mesmo de ser mulheres para passar a ser mães, e isso sem nos apercebermos? Apressei-me a rejeitar  esta tese, enquanto arranjava uma desculpa para fugir do escritório, mas isso ficou a moer…de facto, não sei se os berloques funcionaram, mas uma coisa é certa, o agent provocateur conseguiu provocar-me!

Outubro 2009

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