Porta do cavalo

Viena, parque infantil,  tardinha.

“Cheguei pela porta do cavalo”, diz Marjana. Estamos ambas sentadas num banco de jardim a ver os nossos filhos treparem nos escorregas e nos seus castelos de fantasia e eu só lhe tinha perguntado, por acaso, como tinha ela vindo parar á Áustria. Era apenas uma pergunta de circunstância.

Marjana não é austríaca.É de um país do sudoeste europeu, como muita gente que reside em Viena e conhecemo-nos por acaso, porque os nossos filhos brincam juntos no mesmo parque infantil ao final da tarde. Todos os dias o mesmo percurso falando dos miúdos, do jardim infantil, das doenças, levemente criticando as sogras, o jantar que terá que ser feito, o habitual há séculos entre duas mães, por mais que os tempos sejam outros.

Hoje, os seus olhos grandes de esquilo semi-assustado olham para mim com vontade de contar uma história. O seu corpo delgado e pequeno chega-se mais para a minha beira e então eu ouço. Entre os risos das crianças, ouço que tinha na altura 18 anos e acabado a escola secundária e tirado a carta de condução. A aldeia onde vivia, entre estradas de terra e de pó não era mais do que isso e a fronteira dos sonhos parava ali também.

Nesse tempo o Leste abria-se e com a queda dos últimos ditadores as pessoas saiam e passados tempos regressavam os primeiros emigrantes, com os seus grandes carros e dinheiro para mostrar à gente da aldeia que havia um outro mundo la fora. A mãe de Marjana, apenas 15 anos mais velha que ela própria, resolveu que tinha chegado a altura para também elas tentarem a sua sorte. Fez os seus contactos e pagou a criminosos para que as tirassem dali. Numa noite, tal como muitos outros imigrantes ilegais, trouxeram-nas num autocarro até chegaram à fronteira com a Áustria. Marjana não vê que eu estou paralisada, sem saber o que dizer. Sacode o cabelo negro e fino do casaco de cabedal que traz com este ar fresco de Setembro e continua a contar-me como estava tudo organizado e de como ela tinha medo. Na verdade, todos os do grupo tinham medo! Mesmo os que já faziam isto pela segunda ou terceira vez.

De madrugada largaram-nos na floresta e nos campos e disseram-lhes para correrem e eles assim o fizeram. Correram durante o que lhe pareceram horas, correram sem nunca se voltarem para trás, dizendo adeus a tudo e esperando não terem que regressar nunca mais até chegarem a uma estrada e aí ficaram. Uma carrinha veio-os então buscar e os “chefes” proibiram-nos de dormir, para não darem nas vistas. Ela tinha muito sono e os olhos fechavam-se, mas tinha força e reabria-os logo de novo com a ansiedade do que iria encontrar.  Não creio que naquele momento soubesse que a partir dessa viagem a vida daria uma viragem de 180ºC.

Conta-me ainda como acabaram por chegar a uma exploração de pepinos anões, aqueles que os austríacos e alemães adoram comer em conserva ao pequeno-almoço (azedos e intragáveis na minha opinião). Pepinos que nascem em plantas pegajosas e irritantes para a pele. Um trabalho extenuante, pago a dinheiro vivo, alimentado pela força de gente sem opções, sem falar alemão e que parte quando a estação acaba.

Marjana queria mais, assim, quando pode, rumou para Viena para tomar conta de uma senhora já de idade. Era criada para todo o serviço, mas conta que foi bem tratada. À noite via televisão e estudava alemão e foi assim que aprendeu a falar esta língua. Eu precisei de anos de cursos, ela aprendeu sozinha, a ver televisão …E depois? Pergunto sem ter mais nada que me ocorra perguntar. “Depois casei-me”. Com o teu marido? “Não, com um outro. Paguei para casar”. Não o conhecia, mas casaram porque ele tinha nacionalidade austríaca e lhe dava os papeis que ela precisava para aqui ficar.

Com o casamento pode ter permissão para aqui trabalhar e estudar. Fez um curso técnico e conseguiu a proeza de arranjar um emprego fixo em condições onde viria a conhecer mais tarde o seu actual marido e pai do miúdo louro e sorridente que se tornou o melhor amigo do meu filho. Divorciou-se, casou-se de novo e cá está agora, sentada ao meu lado, com menos 10 anos que eu e 30 mais de vida vivida.

As crianças riem e não fazem ideia de como as suas mães têm histórias diferentes. Os miúdos pedem para lhes irmos comprar uma sandes e um sumo e voltámos ao mundo de Viena. Levamos os miúdos para o café e eu olho para Marjana com admiração e pergunto-lhe porque não escreve ela um livro. Ela sorri-me e diz-me que não vale a pena, é a história de muita outra gente que vem e vai e que luta às margens deste mundo onde eu tive a sorte de nascer.

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