Hoje faria 100 anos

 

2014-06-23 09.33.092Em Junho penso em ti. Penso em ti sempre mais quando os dias se alongam e o Verão espreita penso mais. Durante muitos anos continuei a fazer planos para o teu aniversário e a procurar prendas, esquecendo-me de que tinhas partido e relembrando-o depois com o vazio doloroso que ficou. ™Quando amamos, esquecemo-nos que as pessoas presentes na nossa alma podem já não estar junto de nós para nos aconchegar…

Fui então á procura das tuas recordações. Mas dei-me conta que tudo o que tenho teu aqui em Viena se reduz a isto, fotografias, bordados, as tuas recordações escritas durante anos num caderno vermelho…fragmentos, escreveste e em várias páginas escreves sobre a tua vida a partir do momento em que eu e a minha irmã entramos no teu mundo. Fragmentos que foram teus e se tornaram nossos.20140616_090806

Mas quando amamos não precisamos de recordações. Vives nas pequenas coisas, nas páginas dos clássicos que leio, nas rosas de santa tersinha que, tal como muitas flores, me recordam estares pelo jardim, quando tenho as crianças enroscadas em mim na cama, como nós fazíamos contigo em largas manhas de domingo, lembro-me de ti quando arrumo as minhas gavetas ou faço a dobra bem feitinha da colcha  e penso que por uma vez sorririas de orgulho por eu afinal não ser tão má “arrumadeira” e quando choro, como agora, porque quando penso em ti ainda choro.

Se aqui tivesses seria diferente. Se aqui tivesses eu não estaria tão sozinha e sabia que poderia sempre voltar a Lisboa e que alguém me iria abraçar. Presunções? Não, sei que sim. Na vida temos por vezes a sorte de ter alguém que lá sempre esteve para nós e eu tive-te a ti!

Como disse um dia o António Lobo Antunes sobre ti num livro dele que assinou para ti  “ À Dra. Adélia Barros que me deu mais do que ela pensa”. Tu que sempre amaste a literatura! Mas independentemente de ter sido o Lobo Antunes a dizer isso,  deste muito a muita gente sem saber, a mim, ao mundo, mais do que aquilo que pensaste.

E tudo isso fica para sempre. E o dia 23 de Junho também, por ser S.João e por ser o teu dia.

™

Ser-se feliz chapinhando na lama

Os dias tornaram-se longos e verdes. Maio é, de facto, o mês mais feliz em Viena! Os jardins explodem em cor, as manhãs começam cedo e as noites caiem tarde deixando no ar o sentimento que a vida recomeça para todos! De repente, por todo o lado se vê gente e chega-se à conclusão de que afinal, Viena tem bem mais habitantes do que somos levados a crer durante os longos e pesados meses de Inverno: gente nos jardins a apanhar sol, gente nas esplanadas, gente na rua! Gente!!!

Nos parques infantis, atulhados de crianças e de pais, a miudagem brinca com uma energia fenomenal. Geralmente os pais eufóricos deixam-nos andar descalços e emporcalharem-se na lama e há mesmo parques com fontes e lagos para os miúdos chapinharem em grande, chamam-se “wasser spielplatz” ou seja, “parques infantis com água” e têm geralmente uma bomba de água e terra para se poderem formas autênticos lagos de água porca, uma delícia para aqueles pequeninos seres munidos de baldes e pás e muita imaginação!….

Acho curioso, pois nunca vi em Portugal os miúdos poderem fazer tanta porcaria juntos sob o olhar complacente dos pais e muito menos em espaços criados para esse propósito.Talvez seja a alegria de se poder sair à rua, o que não se pode fazer durante a maior parte do ano, ou talvez sejam formas diferentes de ser. Enquanto olho para a miudagem de pés sujos de lama a correr livremente no jardim, tenho que admitir que não estou mesmo a ver nenhum pai ou mãe portuguesa deixar que os filhos andem descalços pelo asfalto e se molhem em qualquer repuxo e depois se rebolem na areia suja de um parque infantil.

Eu que sempre tivera tanta vontade de me molhar nos largos repuxos de rega do jardins lisboetas e a minha mãe que sempre mo impediu!… O leque de possíveis resultados trágicos era vasto: não porque eu iria ficar constipada, suja, magoada ou todas em conjunto. A proibição demasiado categórica para ser desafiada! Assim, nunca perguntei se havia provas provadas que fosse mesmo assim, de que uns salpicos de água causassem uma pneumonia! É uma daquelas coisas que é assim porque é assim, uma daquelas coisas que não se faz porque não, como não se come o que cai ao chão, nem se toma banho de barriga cheia! É interessante vermos, quando cruzamos culturas, que afinal certas regras de ouro, têm outras interpretações…

Aqui chapinhar numa fonte pública e encher o escorrega de lama é possível e parece que ninguém pensou alguma vez que existissem os riscos que existem para as mães portuguesas. Por outro lado guinchar, dar gargalhadas altas e fazer em geral barulho para além desses espaços autorizados já não é possível, ou é mas toda a gente olha com ar escandalizado! Da mesma forma, quando se entra numa casa onde há crianças todos tiram os sapatos e se nós não os tiramos, somos convidados a fazê-lo com um tom de reprimenda (que porcos! parecem dizer os olhares dos donos da casa!)! Também não se pode andar de fato banho molhado nas praias ou piscinas e cada vez que mergulham os austríacos vão a correr mudar de calções com medo de ficarem constipados ou apanharem uma infecção urinária ou ambas!Assim, aqui também não há a vivalma que desafie estas regras: os pais falam baixo com os filhos, os miúdos são educados, não usam sapatinhos no chão de casa austríaca e emporcalharem-se é possível, mas nos parques de lama criados para esse efeito. Nos cafés não há guinchos de Cowboys e Apaches, mas também não ouvimos pais prometerem uma chapada ao Rubén Miguel por dá cá aquela palha.

Somos diferentes…mas numa coisa somos parecidos, acreditamos mais em regras que pensamos e só damos por elas quando somos confrontados por quem tem outras concepções de como andar por este mundo. Creio que os analistas da integração, imigração e afins devem seguramente ter uma análise mais sofisticada que eu, mas por agora, fica aqui apenas uma das minhas reflexões empíricas de quem vive entre Lisboa e Viena!

O nosso traje?

Recebemos um convite para ir a um casamento em traje tradicional e pediram-me que levasse o meu! O meu quê? Os austríacos perguntaram-me qual é o traje típico português e eu disse que, bem, assim de repente…. não temos.

Sorry, no go! Não temos vestidos de Heidi nem calças curtas de cabedal, ou casacos de cortes centenários com as cores e armas da região. Somos muito modernos. Talvez no Minho, mas ainda aí, não serão todos. Na Nazaré, as peixeiras…bom mas nunca iria a um casamento vestida de Nazarena, acho que a única vez que vesti algum traje tradicional foi o de saloia na festa de Carnaval da escola primária…

A única coisa que me ocorreu que temos de típico é a bata!…Sim a bata é uma coisa que se encontra por Portugal inteiro, embora não a possa considerar vestuário. Na verdade, a bata é a antítese da roupa. A bata é mais que isso, é o uniforme de um batalhão nacional muito especial: o batalhão das mulheres típicas portuguesas. Mulheres de mãos pesadas a esfregar a roupa na pedra, fazer cozido, matar galinhas, limpar o ranho do nariz dos putos, passar uma roupita a ferro em frente à televisão ir até ao mercado comprar umas nabiças, ou colher umas couves se estão na terra. É o uniforme dessas criaturas fantásticas que limpam, cozinham, fazem, amassam e não se cansam, apanham por vezes dos maridos, cuidam dos sogros e nunca nunca desistem!

Enfim, só por isso devíamos dar-lhe um outro estatuto, fazer-la sexy e atraente. Mas a mulher tradicional portuguesa não tem essas pretensões…é humilde e não pede muito…Bom mas a pergunta era qual era o nosso traje..não, não temos!

Assim, lá vou eu sem o nosso traje ao casamento, ver as austríacas nos Dirdln e os homens em Lederhosen.

 

2010


 

Fremd ou a estranheza de ser-se estrangeiro

Hoje foi uma daquelas noites em que me senti uma estranha, fremd, o que em alemão significa também estrangeiro/a.

Na minha casa em Viena, que provavelmente nunca será minha, na minha vida austríaca que provavelmente será sempre a minha outra vida. Estive sem estar, olhando os convivas à mesa de jantar. Todos austríacos, todos diferentes e todos iguais. Falei sem que soubessem quem fala, porque nunca posso falar muito em alemão. Ouço mais que falo e ouço histórias e vidas passadas que nada têm a ver com a minha, porque a minha foi feita de sol e de mar, de Invernos húmidos em casas frias, de Verões quentes em praias largas, de esplanadas tristes onde o café é uma instituição, da presença de velhotes a jogar cartas nos jardins, os  gatos preguiçosos nas soleiras das portas, suspiros e auto-ironia pública que nunca leva a nada, mas na qual insistimos enquanto portugueses.

Eles não sabem, nunca saberão. Eu sou apenas a mulher do G.  Vim de  Portugal, podia vir da Bolívia. É igualmente longe e com uma língua latina. São simpáticos e polidos comigo. Conversam entre eles e esquecem-se de mim com o meu copo de Morilon da Estíria.

Olho para além da mesa de jantar, da porcelana, dos candelabros e dos talheres de prata e penso que um dia hei-de voltar para a minha casa em Lisboa, uma casa que só existe na minha cabeça, com vista fugaz sobre o Tejo, lá ao fundo, entre o branco dos estendais de roupa. O sol nas divisões pequenas, nas vidas, nos sonhos. Uma casa onde estarei em casa e numa vida que poderia ter sido minha, mas não foi e que provavlemente nunca será mais do que uma visão  presa num sonho e uma saudade do que não chegou a acontecer.

10 Outubro 2010

Rapazes

Rapazes vestem azul e brincam com carros. Meninas vestem rosa e brincam com bonecas.

“Isso era o que se dizia antigamente” atira-me alguém da nossa geração!

Pois!…

Domingo de manhã. Acordo mais tarde e reina silêncio em casa. Apenas um zumbido longínquo chega ao meu quarto. Levanto-me para dar com o meu marido e o meu filho de 3 anos (repito 3 ANOS) em frente à televisão a verem atentamente Formula 1. Estão os dois demasiado absortos para olharem para mim. Um zum zum, zum horrível rosna na sala, mas eles estão deliciados! Enquanto tento alcançar ainda trôpega a máquina do café, eis que piso um carrinho de brincar. “Oh não mamã”, ouço do lado das boxes do sofá ” não pises o Porsche!”  O Porsche? Eu que nem sabia que os carrinhos de brincar tinham marcas! Quando era miúda as raparigas já podiam brincar com carrinhos, até se estimulava isso, mas  nunca foram nenhuma highlight. Quando brinquei com eles foi porque eram carros de cores giras e não  Fiats, Minis ou Mercedes!

Agora tenho que ler a auto magazine e  estar atenta às diferenças entre o género automóvel e ouvir a sua alma! Quando vamos de táxi o meu filho cumprimenta o taxista e o carro “Olá Táxi Skoda” e quando pergunta pela família pergunta se os carros respetivos estão bem! “Olá Vovô, e o Volvo, está bom?”. O cúmulo foi debaixo de um nevão, estando os carros todos cobertos de neve, tendo nós carapuços na cabeça e os olhos semi-cerrados para evitar que os  micro flocos gelados nos cegassem, o meu filho grita “mamã, mamã um Jaguar”! Do Jaguar só vi um farol a emergir  entre uma camada branca e fofa, mas no dia seguinte, quando a neve já derretera, confirmei que ele tinha razão. Aquele carro era um distinto Jaguar!

Ok, perguntei a outras mães de rapazes, para me assegurar que o meu filho não é obcecado ou desenvolveu um síndrome obsessivo viatural! Mas não. Feliz ou infelizmente  não estou só! Uma mãe disse-me mesmo que não sabe qual é a vantagem de viver junto a um parque já que o filho só gosta de ver garagens!!!!

É assim, os rapazes gostam de veículos e as meninas de bonecas. Os rapazes andam em grupo, as meninas fazem grupinhos, os rapazes são simples no vestir e as meninas querem ser princesinhas! Tanta luta feminista e acabamos nisto, a transmitir geneticamente estereótipos! Fixe!

2009

Mamas e a secretária do meu marido

Cinco da tarde e estou no 13 A, um autocarro que parece os autocarros de Lisboa, ou seja, sempre cheio e com atrasos, mas com a particularidade de levar sempre, pelo menos, 3 carrinhos de bebés e uns quantos cães, ambos autorizados a viajar de transportes públicos na Áustria. 

Toca o telefone que consigo, por milagre, achar na mala antes de ir parar à caixa de mensagens. Os meus vizinhos naquela lata de sardinhas olham-me desconfortáveis, o que obviamente ignoro. Do outro lado o meu marido pergunta-me se me pode fazer uma pergunta meio estúpida. “Sim, claro que podes. O que foi agora?”. Uma curva e resvalo para cima de um homem de origem otomana que me lança um olhar assassino. Peço desculpa e continuo a conversa telefónica. “Sabes onde é que a Catherine fez a cirurgia plástica para aumentar as mamas?” É que a minha assistente quer aumentar o peito”, ouço do lado de lá.

 “O quê?” A exclamação saiu-me provavelmente demasiado alta e um velhote vienense grunhe-me um vislumbre de insulto, pois não se pode falar alto na Áustria. “Pois, ela quer aumentar as mamas e veio-me perguntar hoje se tinha que tirar férias ou se poderia pôr atestado médico”. Ok, Stop! Saio do autocarro.” Ela quer o quê?” “Ela quer pôr um implante de silicone. Diz que não está contente e perguntou-me se por acaso eu ou tu conhecemos alguém que o tenha feito. Eu disse que por acaso conheço, mas que não sabia se a minha mulher tinha os pormenores. De qualquer forma, disse-lhe que ela não precisava de fazer implante nenhum”.

 

Ok Stop 2! Rewind. O meu marido fala com a assistente dele, que tem a idade imberbe de 23 anos, sobre implantes de silicone às mamas (um clássico tema de trabalho, claro), e diz-lhe, não só que conhece alguém que o fez, como que a dita assistente não precisa de fazer implante nenhum. Adicionando a isto, ninguém é suposto saber que a Catherine pôs silicone nas mamas, embora todos andemos a falar sobre isso. Pergunta lógica: Será que me devo preocupar?

A voz do meu marido é de qualquer forma também de espanto “Eu acho que a malta nova hoje em dia pensa de outra forma. Mas o que é que eu lhe hei-de dizer? Bom de qualquer forma, ela tem que tirar férias, isto não é doença para se pôr atestado médico”. Pois, o que é que EU hei-de dizer? Que não é normal e que se não o conhecesse bem que isto podia ser motivo de divórcio. Ele diz-me que também não acha normal, mas que se eu puder perguntar à Catherine, como quem não quer a coisa, que lhe diga!

2009

Apetrechos

Tratava-se portanto de mais uma tarde enfadonha  em frente ao computador, quando uma mensagem cintilou no écran: uma das minhas colegas convidava-me a mim e a umas tantas outras a irem ter com ela à sua sala, para nos mostrar o que tinha comprado no “Agent Provocateur”. Girls Talk, já!

Embora não me sentisse lá muito “girl”, lá fui. Afinal o “Agent” acabava de abrir recentemente na Tuchlauben, uma ruazinha  de Viena cheia de lojas exclusivas e de barzinhos idênticos para gente chic e bonita ou aspirante a tal. Quem se quer mostrar vai ali fazer compras inúteis ou marca uma mesa no Fabio’s, bem perto das largas janelas e deixa-se ser visto. Assim, lá fiquei à espera de ver o que saia dali.

 

Entre risinhos nervosos lá fomos todas até ao escritório da detentora dos novos produtos. “Lingerie, nova”, pensei eu. “Lingerie cara para quem não gasta dinheiro em creches e baby-sitters e sobretudo não tem filhos”, pensei de seguida! Bom, alheia ao meu pensamento, com artes de magia, a minha colega tirou do grande saco  de papel um pequeno estojo de onde saltaram duas espécies de berloques azuis atrelados a uma pequena ventosa brilhante. Nada de cetins, mousses suaves, lingerie sexy. Apenas dois berloques com ar de fantasia da casa de máscaras da Praça da Figueira. Enquanto eu tentava dissimular a minha decepção para tentar perceber o que  aquilo seria, a minha colega explicou “É para as mamas” e logo de seguida “Põe-se para decorar os mamilos. Enquanto eu tentava articular um “ahhhh!”, a minha colega pôs-se a exemplificar o que eu não queria que fosse exemplificado! As minhas colegas rejubilaram e eu fiquei sem saber o que dizer. Não chegando, tirou ainda duas caixinhas minúsculas com uma geleia colorida e anunciou triunfante, como se tivesse descoberto a última teoria sobre as nano-partículas, “e isto é para dar sabor”!

Depois de alguns segundos de pasmo, lá regressei à realidade. As minhas colegas estavam obviamente felicíssimas com a invenção e esfolheavam avidamente o catálogo que a outra tinha providencialmente trazido consigo. Era necessário que eu entrasse também na onda de alegria e eu sabia-o, mas não me ocorria nada para dizer! Fiquei ali estática a tentar encontrar as palavras apropriadas. Os únicos apetrechos para a mamas que tivera recentemente remontavam ao período de amamentação do meu filho. Assim, enquanto as minhas colegas devoravam o catálogo para verem quais as cores e os sabores possíveis dos apetrechos mamilares, as únicas coisas que me ocorriam eram discos de aleitamento, proteções de silicone para defender os ditos das chupadelas do bebé, ventosas para bombas do leite, cremes de azuleno para as gretas enfim…tudo muito técnico e nada, mas mesmo nada sexy!

Enquanto as minhas amigas pensavam nas novas potencialidade de sedução, eu estava ali a pensar o que me tinha escapado nos últimos anos. Senti-me um pouco como uma matrona terrível vestida de azul escuro e ar sisudo! Será que me tinha tornado numa delas? Será que com a maternidade deixamos mesmo de ser mulheres para passar a ser mães, e isso sem nos apercebermos? Apressei-me a rejeitar  esta tese, enquanto arranjava uma desculpa para fugir do escritório, mas isso ficou a moer…de facto, não sei se os berloques funcionaram, mas uma coisa é certa, o agent provocateur conseguiu provocar-me!

Outubro 2009

Quando os pais tomam conta dos filhos

Primeiro dia de Neve em Viena. Estou em casa doente. O Günther toma conta do Rafael e vão passear. Às 17 horas regressam com um Rafael feliz, de bochechas coradas e as calças molhadas.

 Então o que fizeram?

“Foi um dia óptimo! O Rafael esteve a brincar na neve durante uma hora”

 “Mas ele não tinha roupa de neve!!!”

“Pois, tem as calças molhadas. Rafael tira as calças!”

“E estas luvas? São novas!”

“Pois não encontrei as outras e fomos para a rua sem luvas. Depois, como ele tinha os dedos gelados comprei-lhes estas na loja de tudo a 1 Euro”

“Então onde é que vocês foram?”

“Estivemos no café Leopold com o Dieter, na parte de fumadores porque não havia lugar na outra sala. O Rafael bebeu um leite com chocolate”

“E almoço, vocês não almoçaram?”

“Dei-lhe corn-flakes! À noite ele logo come qualquer coisa de jeito”

“Então e depois?”

“O Rafael caiu de bicicleta. Foi para aquela rampa grande e esqueceu-se de travar. Ia indo para cima dos carros, mas caiu antes disso. Ainda bem que não lhe aconteceu nada de pior!”

“Coitadinho! Chorou?”

“Sim, chorou muito e toda a gente ficou a olhar para mim como se eu fosse um pai de trazer por casa!”

“Então não foste descer a rampa com ele?”

“Eu pensei que ele já fazia isso sozinho. Depois estivemos no mercado de Natal e estava imenso frio, mas o Rafael aguentou-se, brincou na neve, mas depois começou a chorar porque tinha os pés frios e viemos para casa”…

Ninguém ficou doente, nem ferido, nem desnutrido.

Pergunta: são os homens têm  7 vidas, como os gatos ou somos nós, mulheres, que complicamos as coisas?

 

26 Outubro 2010

Sobre o verter águas e os homens

Há dias assim, em que estamos tranquilas a ler um jornal, as crianças brincam pacatamente no tapete e o sol da tarde entra pela janela aberta quando alguém nos resolve interromper a calma do dia para nos confrontar com problemas existenciais que nem supúnhamos existirem, nomeadamente:

-“Eu não sei porque é que as mulheres querem que os homens urinem sentados! Um homem deve ter o direito a mijar de pé! Cada um deve poder faze-lo como quer!!!!”

Olho para o meu marido, autor de tal reivindicação atónita, incrédula, pasmada. Na verdade não sabia se percebera bem e no caso afirmativo, não sabia se aquilo fazia fosse como fosse algum sentido.

-“ Imagina, em casa de X a mulher pediu aos homens que quando fossem à casa de banho fizessem a coisa sentados! Que lata! Era o que faltava!”

-“Fazer xi-xi sentados ou baixar o tampo da sanita?” Pergunto finalmente já em defesa das mulheres que cada vez que vão a uma casa de banho comum têm que baixar o tampo da dita.

-“Sentados. Em casa ainda vai, que ela peça ao marido, mas aos convidados???”

 Assim se desafiam as nossas crenças! Não sei porquê, sempre pensei que os homens só podiam urinar de pé. Nunca vi um homem fazer xi-xi sentado, embora claro que também não possa dizer que ver homens urinar tenha sido uma coisa que eu tenha feito particularmente na minha vida. Os que vi faziam-no de pé, fosse na sanita, nas árvores à beira de uma estrada secundária, nos urinóis antigos do bairro alto, no vão de uma escada antiga (vá-se lá perceber porquê). A minha experiência cultural dizia-me que a posição vertical era a única possível para o género masculino verter as suas águas! Uma questão da evolução, uma característica do homo sapiens! Pensei que só crianças não conseguiam no início faze-lo de outra forma, dada a forma do bacio, mas que essa fosse uma opção para homens adultos era do meu completo desconhecimento! 

Ora lá está, como em muitas coisas, os homens gostam de mostrar que estão por cima sem que existam de facto razões para tal. Fiquei então a saber que os homens austríacos, assim como pelo que percebi os alemães urinam sentados. Para além do meu marido, um outsider portanto, vários confirmaram,-me que em casa fazem-no sentados. Motivo: as mães austríacas que os ensinam assim desde pequeninos que em casa é assim e acabou-se (ah gandas mulheres!). Dentro de portas nada de tampos sujos nem levantados! 

De certa forma elas têm razão, mas é tão pouco macho não é? 

 


 

Quando uma vela se apaga

Morreu a minha avó Justina. 

“É assim a vida”, “Já estávamos conformados”, “Foi melhor para ela que estava a sofrer”, “Já se sabia!” “92 anos afinal”!

Os chavões, porque se tem de dizer alguma coisa, mas também a tristeza, apesar de há muitos anos ela já não estar de certa forma entre nós. Esquecera-se de todos, ou de quase todos e vivia para o imediato, embora acreditasse que vivesse num tempo passado, um tempo em que ela nova, os filhos eram ainda pequenos e o marido vivo.

 

Um bom tempo? O Günther disse-me para me confortar que pelo menos ela tivera uma vida feliz. Será que sim? Penso nela sempre que tenho dificuldades porque acho que ninguém na minha família as deve ter tido tantas como a minha avó. Basta ver a dureza dos campos e a vida da Beira, o granito e o clima seco e frio de Inverno, as casas pequenas onde durante décadas ela teve que viver sem electricidade, água, nada. de luxos ou regalias. Os filhos quase todos de seguida, o trabalho, os animais, as pequenas pausas em torno do lume ou à soleira da porta e depois a solidão. Lembro-me das mãos calejadas sempre a fazer qualquer coisa,  mãos que não podiam escrever, porque escrever não sabia embora tivesse a capacidade de ler nas pessoas e nas situações o que ficava por detrás das linhas. Sim e pesar disto tudo um humor tenaz e sempre uma resposta na língua afiada. Isso fica comigo, bem como todos aqueles momentos especiais vividos com a minha avó do campo, de lenço preto na cabeça e olhar vivo, que sorria a maior parte do tempo, apesar de não ter tido provavelmente a vida bonita e tranquila que merecia.

 

Enfim, hoje partiu, espero que para um sítio bom e bonito.

12.04.2011